Europa aprova chip retinal que pode ajudar a recuperar parte da visão 

I

Actualidade

I

Por

Um implante retinal recebeu marcação CE na Europa e poderá abrir uma nova etapa na recuperação da visão central perdida devido à degenerescência macular da idade. O que significa este avanço para os profissionais do setor da visão? 

A possibilidade de recuperar visão perdida através de um pequeno chip implantado na retina parece, à primeira vista, pertencer a um futuro distante. Mas essa tecnologia acaba de dar um passo importante em direção à prática clínica. 

O sistema PRIMA, uma prótese retinal destinada a pessoas com atrofia geográfica associada à degenerescência macular da idade (DMI), recebeu marcação CE, permitindo avançar para a sua disponibilização comercial em mercados europeus.  

Mais do que uma notícia tecnológica, este desenvolvimento merece a atenção de óticos, optometristas, oftalmologistas e restantes profissionais da visão. Estamos perante uma solução que não procura apenas preservar a visão existente, mas recuperar parcialmente uma função visual já perdida num grupo específico de doentes. 

O que é o PRIMA? 

O PRIMA é um sistema de visão protésica desenvolvido para pessoas com perda grave da visão central provocada por atrofia geográfica secundária à degenerescência macular da idade

A atrofia geográfica é uma forma avançada da DMI em que ocorre degeneração progressiva das células responsáveis pela visão central. Segundo o estudo clínico publicado no New England Journal of Medicine, esta condição afeta mais de cinco milhões de pessoas em todo o mundo.  

O sistema combina duas tecnologias. 

Por um lado, é implantado cirurgicamente um pequeno chip fotovoltaico sob a retina, na zona afetada pela atrofia. Por outro, o paciente utiliza óculos equipados com uma câmara que capta as imagens do ambiente. Estas são depois projetadas sobre o implante através de luz próxima do infravermelho.  

O chip converte essa informação luminosa em estimulação elétrica, procurando ativar as células retinianas que permanecem funcionais e permitir que a informação volte a seguir pela via visual até ao cérebro.  

Não se trata, portanto, de substituir todo o funcionamento do olho nem de devolver uma visão igual à visão natural. O objetivo atual é recuperar visão central funcional em zonas onde essa capacidade foi perdida. 

O que demonstraram os ensaios clínicos? 

É aqui que esta tecnologia se torna particularmente relevante. 

O estudo PRIMAvera, publicado no New England Journal of Medicine, envolveu 38 participantes com atrofia geográfica associada à DMI. 

Dos 32 participantes avaliados ao fim de 12 meses, 26, ou 81%, apresentaram uma melhoria clinicamente significativa da acuidade visual com o sistema PRIMA.  

Outro dado importante é que a acuidade visual periférica natural média se manteve equivalente aos valores anteriores à implantação, sugerindo que a utilização do sistema permitiu acrescentar visão protésica central sem comprometer, em média, a visão periférica residual dos participantes.  

O estudo registou também eventos adversos graves relacionados com o procedimento ou dispositivo. A maioria ocorreu nos primeiros dois meses após a cirurgia e grande parte resolveu-se nos meses seguintes, um dado importante quando se avalia o equilíbrio entre benefícios e riscos desta tecnologia.  

Estes resultados não significam que todos os pacientes recuperem a visão da mesma forma, nem que o PRIMA seja uma solução aplicável a qualquer tipo de cegueira ou baixa visão. 

A indicação estudada é muito específica: perda grave da visão central causada por atrofia geográfica associada à DMI.  

Da investigação para o mercado europeu 

O desenvolvimento mais recente aconteceu em julho de 2026, quando o sistema recebeu marcação CE, permitindo a sua comercialização na Europa para esta indicação.  

A marcação CE insere o dispositivo no quadro regulamentar europeu dos dispositivos médicos, que estabelece requisitos relativos à segurança, desempenho clínico, avaliação de conformidade e acompanhamento após a entrada no mercado.  

A disponibilização aos pacientes não significa, contudo, que a tecnologia passe imediatamente a estar acessível de forma generalizada. A implementação depende também da ativação de centros clínicos, organização dos procedimentos e modelos de financiamento e reembolso em cada mercado.  

O que significa este avanço para os profissionais da visão? 

Um implante retinal desta natureza pertence claramente ao domínio médico e cirúrgico, mas o seu impacto poderá estender-se muito além do bloco operatório. 

À medida que surgem novas alternativas para pessoas com baixa visão e doenças retinianas avançadas, aumenta também a importância de os diferentes profissionais que acompanham estes pacientes conhecerem as possibilidades existentes e os seus limites. 

Para óticos, optometristas e outros profissionais da visão, acompanhar tecnologias como o PRIMA permite compreender melhor a evolução das respostas disponíveis para pacientes com perda visual grave, comunicar de forma informada e gerir expectativas perante notícias que rapidamente chegam ao público. 

A aprovação europeia também reforça uma tendência cada vez mais evidente: a saúde visual está a aproximar áreas que anteriormente funcionavam de forma mais separada, desde a oftalmologia e optometria até à engenharia, neurotecnologia e inteligência artificial. 

Para os profissionais, isto significa que a atualização contínua deixa de passar apenas por novas lentes, equipamentos de diagnóstico ou técnicas de correção. Passa também por compreender tecnologias que poderão alterar a forma como determinadas patologias são acompanhadas. 

Um chip retinal não é uma “cura para a cegueira” 

A força da notícia pode facilmente dar origem a interpretações erradas. 

Falar num “chip que restaura a visão” não significa que uma pessoa cega passe a recuperar uma visão normal após o implante. 

O PRIMA foi estudado numa população específica, com atrofia geográfica associada à DMI, e a visão proporcionada pelo sistema continua a apresentar limitações. O objetivo é criar uma forma de visão central funcional que possa complementar a visão residual do paciente.  

Esta distinção é particularmente importante para os profissionais da visão, que frequentemente são confrontados com pacientes que chegam às consultas ou às óticas depois de terem lido notícias sobre novos tratamentos. 

Conhecer a evidência por detrás das manchetes permite explicar melhor para quem se destina a tecnologia, o que consegue atualmente fazer e aquilo que ainda permanece em investigação

A tecnologia está a mudar os limites da saúde visual 

Durante décadas, grande parte da intervenção na saúde visual concentrou-se em corrigir, prevenir ou retardar a progressão da perda de visão. 

Tecnologias como o PRIMA introduzem uma nova possibilidade: utilizar sistemas eletrónicos para substituir parcialmente funções de células retinianas que deixaram de funcionar. 

Ainda estamos perante uma tecnologia altamente especializada, com uma indicação clínica limitada e que continuará a ser acompanhada à medida que aumenta a sua utilização. 

Mas a passagem de um sistema experimental para um dispositivo com marcação CE representa um marco relevante para a área da visão.  

Para o setor ótico, a mensagem é igualmente importante: acompanhar a inovação científica é essencial para compreender como poderão evoluir as necessidades dos pacientes, as possibilidades terapêuticas e o papel de cada profissional no percurso da saúde visual. 

O futuro da visão não estará apenas em ver melhor através de novas soluções óticas. Estará também na capacidade de ciência, medicina e tecnologia encontrarem novas formas de preservar e, em determinados casos, recuperar funções visuais que antes eram consideradas perdidas

Etiquetas

También te puede interesar

Olhos cansados, visão desfocada, secura ocular ou dores de cabeça depois de várias horas ao computador são queixas cada vez mais familiares. A utilização intensiva de ecrãs tornou a fadiga ocular digital um tema relevante não apenas para os utilizadores, mas também para óticos, optometristas e restantes profissionais da visão.  Computadores durante o horário de […]

Com a chegada dos dias de sol, aumenta também a procura por óculos de sol. Para as óticas, esta é uma oportunidade para reforçar a importância da proteção visual, valorizar o aconselhamento profissional e dinamizar uma categoria que combina saúde, conforto e estilo.  No entanto, muitos consumidores continuam a escolher os óculos de sol apenas […]

1. Criar uma campanha focada na saúde visual infantil  Uma campanha simples pode ajudar a sensibilizar os pais para a importância de verificar a visão antes do início das aulas.  A comunicação pode abordar temas como:  Este tipo de conteúdo gera identificação e incentiva a marcação de consultas.  2. Atualizar montras e materiais de comunicação  […]

Únete a CECOP

y descubre cómo rentabilizar al máximo tu negocio