Olhos cansados, visão desfocada, secura ocular ou dores de cabeça depois de várias horas ao computador são queixas cada vez mais familiares. A utilização intensiva de ecrãs tornou a fadiga ocular digital um tema relevante não apenas para os utilizadores, mas também para óticos, optometristas e restantes profissionais da visão.
Computadores durante o horário de trabalho, telemóveis nos intervalos, tablets, televisão e novamente o smartphone ao final do dia. Para muitas pessoas, alternar entre diferentes ecrãs tornou-se parte natural da rotina.
Com esta mudança de hábitos, também aumentou a atenção dada à Síndrome Visual Informática, conhecida igualmente como Computer Vision Syndrome ou fadiga ocular digital.
A American Optometric Association (AOA) descreve-a como um conjunto de problemas oculares e visuais associados à utilização prolongada de computadores, tablets, leitores digitais e smartphones. Entre as queixas mais comuns encontram-se fadiga ocular, dores de cabeça, visão desfocada, olhos secos e desconforto no pescoço e ombros.
Para os profissionais do setor, compreender estas queixas é particularmente importante porque aquilo que o cliente descreve simplesmente como “cansaço dos olhos” pode envolver diferentes fatores visuais, ambientais e ergonómicos.
Porque é que olhar para um ecrã pode causar tanto desconforto?
O problema não está apenas no número de horas passadas em frente ao computador.
A leitura num ecrã apresenta exigências diferentes da leitura em papel. O contraste, os reflexos, a iluminação, a distância de trabalho, a dimensão dos caracteres e a posição do monitor podem aumentar a exigência visual. Problemas refrativos não corrigidos ou uma correção pouco adequada à distância de trabalho também podem agravar os sintomas.
Há ainda outro fator particularmente relevante: o pestanejo.
Durante tarefas que exigem concentração, como trabalhar ao computador, a frequência do pestanejo pode diminuir. Isso aumenta o tempo de exposição da superfície ocular e pode contribuir para instabilidade do filme lacrimal e sintomas semelhantes aos do olho seco. A literatura recente aponta precisamente esta relação entre utilização de dispositivos digitais, redução do pestanejo e sintomas da superfície ocular.
Por isso, a fadiga ocular digital deve ser entendida como um fenómeno multifatorial. Não existe necessariamente uma única causa.
Os sinais que chegam à ótica e à consulta
A Síndrome Visual Informática pode manifestar-se de formas diferentes de pessoa para pessoa.
Entre os sintomas mais frequentemente associados encontram-se:
- fadiga ou sensação de peso nos olhos;
- secura, ardor ou irritação ocular;
- dores de cabeça;
- visão desfocada;
- dificuldade em mudar o foco entre diferentes distâncias;
- desconforto no pescoço e ombros.
Uma revisão recente da evidência identifica também sintomas como fotofobia, lacrimejo, vermelhidão e dor ocular entre as manifestações associadas à fadiga ocular digital.
Para o profissional da visão, esta variedade de sintomas é importante. Uma pessoa que passa muitas horas ao computador pode atribuir automaticamente o desconforto ao ecrã quando existe, por exemplo, um erro refrativo não corrigido, uma dificuldade acomodativa, uma alteração binocular ou um problema da superfície ocular que merece ser avaliado.
Nem todos os utilizadores de ecrãs têm as mesmas necessidades
Um dos aspetos mais relevantes para óticos e optometristas é precisamente este: a utilização profissional da visão também deve ser considerada no acompanhamento do cliente.
Uma prescrição adequada para conduzir ou para outras atividades quotidianas pode não responder da mesma forma às exigências de alguém que passa várias horas por dia a trabalhar a uma distância intermédia.
A posição do ecrã, a distância habitual de trabalho, o número de monitores utilizados e até a necessidade de alternar frequentemente entre documentos, computador e outras distâncias podem alterar as exigências visuais ao longo do dia. A AOA destaca precisamente a importância de considerar estas condições na avaliação da fadiga ocular digital.
Isto reforça a importância de conhecer não apenas quanto vê o cliente, mas também como utiliza a visão no seu dia a dia.
Perguntas simples sobre profissão, horas de utilização de dispositivos, distância de trabalho e momento em que surgem os sintomas podem fornecer informação relevante para orientar uma avaliação mais completa.
A regra 20-20-20 continua a fazer sentido?
É provavelmente uma das recomendações mais conhecidas quando se fala de ecrãs.
A regra 20-20-20 recomenda que, a cada 20 minutos de trabalho ao perto, se faça uma pausa de aproximadamente 20 segundos olhando para algo situado a cerca de 20 pés, aproximadamente seis metros.
A American Optometric Association continua a recomendar esta prática como uma estratégia simples para interromper períodos prolongados de visão ao perto e reduzir o desconforto associado à utilização de dispositivos digitais.
Além das pausas, a posição do monitor, a iluminação do espaço, o controlo de reflexos, uma distância de trabalho confortável e o pestanejo regular são fatores que podem contribuir para uma utilização mais confortável dos ecrãs.
E a luz azul? É realmente a principal responsável?
Este é um dos temas em que a informação transmitida ao cliente deve ser particularmente rigorosa.
A luz azul tornou-se frequentemente associada à fadiga ocular provocada pelos ecrãs. No entanto, a melhor evidência disponível atualmente não demonstra que as lentes com filtro de luz azul reduzam de forma relevante a fadiga ocular de curto prazo provocada pelo trabalho ao computador, quando comparadas com lentes sem esse filtro.
Uma revisão Cochrane que analisou 17 estudos randomizados, envolvendo 619 participantes, concluiu que as lentes filtrantes de luz azul poderão fazer pouca ou nenhuma diferença na redução da fadiga ocular relacionada com computadores. A evidência disponível também não demonstrou proteção da saúde macular associada a estas lentes.
Isto não significa que todas as soluções de lentes sejam irrelevantes para quem trabalha com ecrãs. Pelo contrário, uma correção adequada às necessidades refrativas, às distâncias de trabalho e às características individuais pode ser importante.
Significa apenas que fadiga ocular digital e luz azul não devem ser tratadas como sinónimos.
Para os profissionais, esta distinção é essencial para garantir um aconselhamento baseado na evidência e evitar simplificações numa área em que o consumidor está exposto a muita informação comercial.
O ecrã pode revelar um problema que já existia
Há outro ponto particularmente importante.
Nem sempre é o computador que “cria” o problema visual.
A utilização prolongada de ecrãs pode tornar mais evidente uma dificuldade que até então passava despercebida. Astigmatismo, hipermetropia, presbiopia, alterações da acomodação ou da coordenação binocular podem contribuir para o aparecimento ou agravamento dos sintomas durante tarefas prolongadas ao perto.
Por esse motivo, sintomas recorrentes não devem ser resolvidos apenas através de alterações no brilho do monitor ou de pausas ocasionais.
Uma avaliação visual permite compreender se existe uma condição que necessita de correção ou acompanhamento e distinguir uma situação essencialmente ergonómica de um problema visual ou ocular que merece atenção.
Uma oportunidade para reforçar o papel do profissional da visão
A digitalização do trabalho trouxe novas exigências para a saúde visual e também novos temas para o diálogo entre profissionais e clientes.
Para uma ótica, falar sobre fadiga ocular digital pode significar, ir muito além de recomendar um determinado produto.
Pode significar perguntar como o cliente trabalha, compreender as distâncias que utiliza, explicar a importância das pausas, corrigir conceitos errados sobre luz azul e encaminhar para uma avaliação adequada sempre que existam sintomas persistentes.
É precisamente neste contexto que o aconselhamento profissional ganha relevância.
Num mundo em que os ecrãs fazem parte da rotina de praticamente todas as idades, compreender a relação entre visão, trabalho e hábitos digitais será cada vez mais importante para quem trabalha diariamente com saúde visual.
A tecnologia continuará presente. O desafio passa por garantir que a forma como utilizamos a visão acompanha essa evolução.